segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

De finibus bonorum et malorum -- Cícero

Cotejo duas traduções do de Finibus, uma brasileira e outra portuguesa. Eis as referências:

Do sumo bem e do sumo mal. Trad. Carlos Nougué. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

As últimas fronteiras do bem e do mal in Textos filosóficos. Trad. J. A. Segurado e Campos. Lisboa: Calouste, 2012.

Como já falamos na postagem sobre Academica, textos pré-imprensa são feitos com base em edições críticas, onde cotejam-se vários manuscritos e, metodicamente, opta-se por uns e não por outros, colocando em notas de rodapé variantes e sugestões de leitura. O tradutor português diz em quem se baseia: na edição de L. D. Reynolds. Assim como o tradutor brasileiro de Academica, Nougué tampouco diz palavra sobre a edição em que se baseia. Porém, há um agravante: ele omitiu as notações mais precisas e mais usadas. Quem queira cotejá-lo ficará em apuros! Há o número dos livros, os trechos grandes numerados em romanos (que não se usam), e os trechos menores numerados em arábico não constam. Para citar, é inutilizável.

Pior ainda é que ele não parece ter se dado conta de que os romanos não são uma numeração literária: os números aparecem em destaque, como se fossem capítulos! Como falei antes, essas numerações são acidentais e físicas, da época em que não existia página pra citar. Há obras de Cícero com um número romano no meio da frase...!

Ao cotejo:

NOUGUÉ, p. 34: "Quando a oração se arrebata como numa torrente, arrastando tudo em seu curso, nada podes compreender, nada reter na memória, nem atalhar o curso rapidíssimo da oração. A primeira regra de toda e qualquer controvérsia racional é que os que disputam convenham entre si acerca de que matéria se tratará.
                                                    
II

"Esta regra de Platão no Fedro aprovou-a Epicuro, reconhecendo que é necessária em qualquer disputa. Mas não viu o que disso forçosamente se deduz. Ele não queria que a coisa se definisse, e sem isto é impossível aos que duvidam chegar a convir na essência da coisa de que se trata. Buscamos o fim dos bens -- e como o podemos buscar, se antes não determinamos o que é este mesmo fim e o que são estes mesmos bens?"

SEGURADO E CAMPOS, p. 289: "Quando o discurso flui como uma torrente, embora se faça menção de toda a espécie de argumentos, não é possível a quem escuta fixar-se em nenhum. Quer dizer, não se consegue dominar o fluxo do discurso.

"Toda a investigação centrada sobre uma dada questão e conduzida segundo uma determinada metodologia deve começar pela delimitação do tema, à maneira do que se faz com as fórmulas <jurídicas> do tipo A MATÉRIA EM CAUSA É A SEGUINTE [nota 58], o que permite aos interlocutores acordarem sobre a matéria de que vão falar.

"Esta regra foi proposta por Platão no Fedro [nota 59]; Epicuro aprovou-a, e mantém o parecer de que toda a discussão deverá observá-la. No entanto não se apercebeu do passo a dar imediatamente. De fato ele recusa-se a a definir os vocábulos que usa, quando pode dar-se o caso de a definição ser imprescindível para haver acordo entre os dialogantes sobre o objeto da discussão, como sucede com o caso que estamos a discutir. Pretendemos averiguar qual é o maior dos bens [nota 60]: poderemos nós descobrir qual é ele se não tivermos chegado a um acordo prévio, quando falamos no limite do bem, sobre o que se entende por 'limite', e o que se entende que seja 'o bem'?"

"Nota 58: Sobre o conceito de fórmula jurídica e a respectiva estrutura, v. Gaio, Instituições -- Direito privado romano [...]/ 59: Platão, Fedro, 237b: 'Seja qual for o tema, meu rapaz, há um ponto prévio que todos devem observar antes de encetarem uma discussão: saberem bem qual matéria vão discutir.'/ 60: Lat. quaerimus... finem bonorum, 'investigamos (qual) o limite, a fronteira, o ponto máximo dos bens.'"

Como a edição de Reynold's, que é a da Coleção Loeb, não está disponível online e eu não tenho esse volume, ponho a do Perseus, que inclusive parece ser a usada por Nougué:

CÍCERO 2.3 - 2.4: "cum enim fertur quasi torrens oratio, quamvis multa cuiusque modi rapiat, nihil tamen teneas, nihil apprehendas, nusquam orationem rapidam cœrceas.

"Omnis autem in quaerendo, quae via quadam et ratione habetur, oratio praescribere primum debet ut quibusdam in formulis, ut, inter quos disseritur, conveniat quid sit id, de quo disseratur.
 
"hoc positum in Phaedro a Platone probavit Epicurus sensitque in omni disputatione id fieri oportere. sed quod proximum fuit non vidit. negat enim definiri rem placere, sine quo fieri interdum non potest, ut inter eos, qui ambigunt, conveniat quid sit id, de quo agatur, velut in hoc ipso, de quo nunc disputamus. quaerimus enim finem bonorum. possumusne hicscire qualis sit,nisi contulerimus inter nos, cum finem bonorum dixerimus, quid finis, quid etiam sit ipsum bonum?"

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Debaixo do nosso nariz, patrimônio intelectual sob risco


Desde a expulsão dos jesuítas, os livros e a instrução existem na Bahia contra tudo: Portugal proibia o invento de Gutemberg na colônia; e, se tínhamos Vieira e Gregório de Mattos ao mesmo tempo, um enviava seus escritos para Portugal, e do outro restaram códices, como se fosse autor antigo ou medieval. Nem o boom de imigração que fez tanta diferença nos interiores do sul e sudeste do país viriam a nos ajudar: nossa imigração foi pífia, e o trabalho no interior da Bahia pós-Abolição seria regido pelos modelos medievais da terça, meação, dia de trabalho gratuito e pagamento em comida. Que de apenas uma classe média urbana e uns filhos de coronéis desinteressados de negócios surgisse uma vida intelectual pujante, é que é de admirar.

Ainda assim, é mais fácil encontrar na história da Bahia episódios de destruição de livros do que de produção. Seja quando a briga entre dois professores universitários (Ruy Barbosa e J.J. Seabra) pelo governo do estado resultou em um bombardeio que destruiu a única biblioteca pública da cidade, seja através da queima de livros e destruição de editoras, mesmo. Sobre estas, veja-se na História da Bahia o capítulo XXIV para a queima pública dos livros de Jorge Amado e o banimento dos de Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos e Gilberto Freyre.

Exceção a tudo isso foi Luís  Viana Filho, ele próprio professor de Direito e História. Cito História da Bahia, 10ª ed., de Luís Henrique Dias Tavares, p. 484-5. O grifo é meu:

"Uma preocupação especial do governador Luís Viana Filho foi dotar a Bahia de uma biblioteca pública em condições de atender o povo baiano. Para que ela existisse, desapropriou uma área no bairro dos Barris e abriu concurso nacional para premiar o melhor projeto arquitetônico. Outra preocupação foi a de criar condições para a existência de pelo menos uma editora comercial na Bahia. Não conseguindo atrair a José Olympio, do Rio de Janeiro, a qual consultou sobre a possibilidade de instalar uma sucursal na Bahia, o governador Luís Viana Filho assinou convênios com as editoras baianas Progresso e Itapuã para edições de livros pelo sistema de compra de exemplares à semelhança do procedimento do Instituto Nacional do Livro. Assim, foram reeditados, pela Editora Itapuã, clássicos da importância das cartas de Luís dos Santos Vilhena, A Bahia do século XVIII, com notas e comentários do historiador Brás do Amaral e do antropólogo Edison de Souza Carneiro, e Povoamento da cidade do Salvador, clássico da autoria do mestre da antropologia baiana, Thales de Azevedo."

Como falei antes, os livros da Progresso não estão todos na Biblioteca Nacional, porque há muito mais títulos seus na Estante Virtual que no catálogo. Sabem o que isso quer dizer? Que, se certos exemplares da Bahia se perderem, perdem-se obras de gente como Theodoro Sampaio e Thales de Azevedo!!

-- Ah, mas e o saite do Domínio Público?

Vou usar Theodoro Sampaio, que é domínio público, como exemplo, tá?

Eis o resultado da busca de Theodoro Sampaio:
Procurei sem H também, e o resultado foi o mesmo. 

Pra ter uma ideia, em Casa Grande & Senzala, aparecem nas referências as seguintes obras dele:
 "São Paulo no tempo de Anchieta", in III Centenário do Venerável Joseph de Anchieta, S. Paulo, 1900.
O Tupi na Geografia Nacional, 3ª ed., Bahia, 1928.
O Rio São Francisco e a Chapada Diamantina, Bahia, 1938.

Na História da Bahia, aparecem:
História da fundação da cidade do Salvador. Salvador: Tipografia Beneditina, 1949. (Póstumo)
O estado da Bahia. Salvador: s.n., 1923.

Seria difícil catalogar as obras completas de Theodoro; seu Tupi parece ser dos menos difíceis de encontrar. Na Wiki, achei este saite com algumas obras dele digitalizadas pelo Google. Os volumes são da biblioteca da Universidade de Stanford. Quanto a edições não-esgotadas de qualquer livro dele, parece haver apenas esta.

Agora, e se bombardeios porventura abatessem bibliotecas baianas de novo? E se as traças e a umidade da cidade danificarem os exemplares? Será que a BN nos salva? Resposta:

Bem, quem sabe a Biblioteca de Stanford não nos salvaria. Do contrário, as gerações futuras bem poderão editar Theodoro -- e sabe-se lá quantos outros -- à maneira dos pré-socráticos, com fragmentos. Nós até podemos maldizer os que incendiaram Alexandria. Já eles...

sábado, 17 de dezembro de 2016

Tradução de filosofia na Bahia

Este ano publiquei pela Edufba uma tradução dos Diálogos sobre a religião natural, de Hume, e atinei que eu bem posso ser a primeira pessoa a publicar na Bahia a tradução integral de um clássico da filosofia. Disse isso no Facebook, e as reações foram variadas: desde os entusiasmados parabéns até reprimendas inbox, pelo "elogio em boca própria" sem nem ser a primeira tradutora baiana. (Eu nunca disse ser a primeira baiana, mas sim a primeira a publicar na Bahia. E se eu digo que sou a primeira, isso é afirmar um fato; elogiar seria dizer que sou a melhor ou a mais bonita. Mais ainda, deveria ser do interesse dos baianos letrados mapear a história da tradução na Bahia, e é pequenez pôr acima do conhecimento da nossa história a preocupação com tolher jovens.) Além disso, recebi informações, e não quero que elas se percam na celeridade do Facebook.

Passemos às probabilidades de a minha ser a primeira tradução integral de clássico da filosofia editada aqui. Não há nenhuma outra tradução de filosofia na Edufba, nem há tradução alguma na editora baiana em que professores do departamento de Filosofia da UFBa costumam publicar, a Quarteto.

Pra recuar no tempo, peguei as referências bibliográficas do enciclopédico Luís Henrique Dias Tavares na História da Bahia para encontrar os nomes das editoras de Salvador. Destacaram-se os selos Livraria Progresso e Itapuã. No próprio Luís Henrique, vi que o florescimento dessas editoras foi iniciativa de Luís Viana Filho -- depois vou postar sobre isso. Quanto à Livraria Progresso, há montes de exemplares à venda na Estante Virtual. Da Itapuã, quase nada. No catálogo da Estante há muita História, Sociais, antologias de Gregório de Mattos, Castro Alves e Ruy Barbosa, coisas sobre Grécia e Roma (por César Zama, um político inimigo de Ruy), literatura local e francesa (esp. Victor Hugo). Encontrei um livro de filosofia na Progresso: O Capital, de Marx, supostamente condensado por Gabriel Deville. Denise Bottmann, em seu Não Gosto de Plágio, já contou esse insólito caso da bibliografia secundária que passou por primária no mundo lusófono. O Capital, de Marx, fora confundido com O Capital de Marx, de Gabriel Deville!

Sobre as principais editoras baianas, quero deixar registrado que o catálogo delas está incompleto na Biblioteca Nacional, e até com um provável erro (a saber, o de A paixão de Abelardo e Heloísa ser creditado a Abelardo, quando na Estante o livro é universalmente dado por romance francês da autoria de certo Lamartine). Compare-se o catálogo da Progresso na Estante ao da BN. E isso é grave, porque quer dizer que muitas obras de intelectuais importantes da Bahia podem se perder!

Antes dessas editoras, havia certas Typographias do fim do XIX e do começo do XX. Alguns nomes são "Beneditina", cujos autores eram em geral monsenhores, a Tourinho (achei até um livro escaneado na Wikisource) e a Social. Delas, não há catálogo. Agora, acho muito improvável que, sem faculdade de filosofia nem público leitor, alguém tivesse se dado ao trabalho de traduzir uma obra que a meia dúzia eruditos baianos podia ler no original.

Mas não volto mais no tempo. Comecei pensando que, lá na colônia, seria vão, pois os jesuítas publicavam tudo em latim... Mas vejo que até o que publicavam era necessariamente fora daqui: Portugal, hipercentralista que era, proibiu a imprensa no Brasil! Com o alto analfabetismo, não é de admirar que infratores não se encorajassem. A tipografia só veio com a Corte, em 1808, e aí o que surgiu com toda a força foram os jornais. Nessa época, em 1814, foi impressa no Rio uma tradução de Aristóteles para o português, feita pelo Prof. Silvestre Pinheiro, que acompanhou a Corte, como me mostrou Giorlando Lima.

Por fim, noto que a geração que está com uns 40 a 60 no Departamento da UFBa é a primeira com formação propriamente em filosofia, a qual foi possível graças ao pioneiro departamento de filosofia da USP. Antes deles, havia a figura do intelectual multitarefa, e filosofia é aquela disciplina que todo advogado ou cientista social deve conhecer. Portanto, se não houve nenhuma tradição de filosofia na Bahia análoga à de história, direito ou sociais, explica-se a demora. Agora, por que teve disso tudo, mas de filosofia não teve, não sei.

Além disso, algo que na certa ajudar muito a explicar como uma cidade fundada em 1549 (data anterior ao hábito de traduzir para o vernáculo) parece ter chegado a 2015 sem uma tradução de clássico de filosofia é a falta de público leitor. Mesmo que despontasse um estudioso ou outro, não havia uma massa letrada o suficiente para comprar livros de filosofia, mas que não fosse letrada demais para desprezar traduções e preferir ir ao original. A falta de público leitor prejudicou os brasileiros até no mínimo a década de 70, pois mesmo a celebrada Pensadores de capa azul não se preocupa em avisar quando os textos não são integrais. Um exemplo claro é o volume Berkeley/Hume, que tem listado entre os títulos os Ensaios morais, políticos e literários, mas onde consta cerca de metade dos ensaios.

Outra coisa que ajuda a explicar é o centralismo que herdamos de Portugal e mantivemos enquanto Brasil. Quer publicar livros? Que vá para São Paulo ou Rio. Tanto é que, pensando em baianos e tradução de filosofia, há na ponta da língua Paulo César de Souza, com seus Nietzsches pela Companhia. No nosso departamento de hoje, há também João Carlos Salles, que traduziu e até editou as Anotações sobre as cores pela Unicamp. Pelo Prof. Mauro Castelo Branco de Moura, soube ainda que a façanha de traduzir por inteiro O Capital (verdadeiro) foi de um baiano, José Reginaldo Sant'Anna, pela José Olympio. E ele contou ainda que um professor antigo do departamento, Remy de Souza, tinha traduzido obra cartesiana.  Felizmente o professor tem Lattes, e pude identificar as obras. São a Monadologia  de Leibniz e Do espírito geométrico e da arte de persuadir, de Pascal. A referência desta última só pude encontrar neste compêndio de Paim, p. 157. Foi publicada em 1973 pela Beneditina e não está no sistema de bibliotecas da UFBa. Como tem somente 37 páginas, não pode ser integral. Já a Monadologia, consta no sistema:
Com tão poucas páginas, tampouco pode ser integral.

Ainda sobre tradução na Bahia, registremos a estadia do grande tradutor e filósofo português Agostinho da Silva, que fundou o Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO) da UFBa. Ele deixou todas as traduções gratuitas, e estão disponíveis neste saite. Uma agradável surpresa que se provou enganadora foi a Bahia Colecção de Folhetos, onde se encontra uma tradução do Sonho de Cipião, que é um pedaço da República de Cícero. Lastimavelmente, Bahia era o nome da coleção, a qual era impressa em Lisboa mesmo. (Isto se vê na referência bibliográfica em nota na primeira página.)


E vocês, se acharem mais coisas de tradução de filosofia na Bahia, contam aqui nos comentários? Facebook não, que se perde!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Aviso aos dois ou três leitores deste blogue

Ficarei editando à medida em que encontre noas traduções, sem me preocupar em marcar o que foi escrito antes ou depois numa mesma postagem -- a coisa ficaria muito confusa.

Assim, você pode eventualmente futucar postagens velhas na expectativa de coisas novas.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Anotações sobre as cores -- Wittgenstein

*** Post de aniversário do EFG***

Aquele que se aventure a editar obras de Wittgenstein pode deparar-se com hieróglifos avulsos, e seu trabalho não deixa de lembrar o do historiador de antiga que tenha de arrumar fragmentos de modo a reconstituir seu sentido. Em português, há duas versões das suas Anotações sobre as cores:uma portuguesa mais velha, feita por Filipe Nogueira e Maria João Freitas que saiu em 1987 pela 70, e outra de João Carlos Salles, pela UNICAMP em 2009. Num cotejo integral haveria discrepâncias das maiores porque, enquanto os portugueses usam o estabelecimento de G. E.M. Anscombe do texto de Wittgentein, o tradutor brasileiro, que também teve acesso aos tais hieróglifos, fez um novo estabelecimento.

Além de questões historiográficas que levaram à inserção de novos trechos e à reordenação de outros -- isto tudo explicado na Introdução do tradutor --, a versão brasileira traz uma diferença capaz de conquistar a simpatia até do leitor desprevenido: quando o autor pusera várias palavras, anotando umas acima e outras abaixo, sem marcar a decisão por quaisquer delas, o tradutor brasileiro colocou-as todas, deixando a frase indecidida qual o próprio Wittgenstein deixara, separando as opções não-riscadas separadas por barras.

Ao cotejo:

NOGUEIRA & FREITAS: "7. Propõe-se a alguém a tarefa de misturar um certo verde-amarelo (ou verde-azulado) com um menos amarelado (ou azulado) -- ou de escolher entre um conjunto de amostras de cor. Um verde menos amarelado não é, contudo, um verde azulado (e vice-versa), e a tarefa consiste também em escolher ou em misturar um verde que não é amarelado nem azulado. Digo "ou em misturar" porque um verde não se torna simultaneamente azulado e amarelado, pois é produzido por um tipo de mistura de amarelo e azul."

SALLES: "7. // Há verdes mais ou menos azulados (ou amarelados) e há // Há a tarefa de misturar a um dado verde-amarelo [ado] (ou verde-azul [ado]) um menos amarelado (ou azulado) -- ou a de escolher entre várias amostras de cor. Um verde menos amarelado não é porém azulado (e vice-versa), e há também a tarefa de escolher, ou misturar, um verde que não seja amarelado nem azulado. Eu digo "ou de misturar" porque um verde, uma vez produzido através de alguma espécie de mistura de amarelo e azul, não se torna por isso ao mesmo tempo azulado e amarelado."

WITTGENSTEIN: "7. // Es gibt mehr, oder weniger bläuliches (oder gelbliches) Grün und (es) // Es giebt die Aufgabe, zu einem gegebenen Gelbgrün (oder Blaugrün) ein weniger gelbliches (oder bläuliches) zu mischen, -- oder aus einer Anzahl von Farbustern auszuwählen. Ein weniger gelbliches ist aber kein bläuliches Grün (und umgekehrt), und es gibt auch die Aufgabe, ein Grün zu wählen, oder zu mischen, das weder gelblich noch bläulich ist. Ich sage "oder zu mischen", weil ein Grün dadurch nicht zugleich bläulich und gelbich wird, dass es durch eine Art der Mischung von Gelb und Blau zustandekommt."

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Academica -- Cícero

Yes, we have in Brazil uma tradução de Academica, o livro de Cícero voltado a epistemologia e descreve o famoso ceticismo acadêmico (ou não tão famoso -- na verdade, pirrônico está na moda e aí fala-se do acadêmico por tabela). Saiu em 2012, feita por José R. Seabra, professor de latim da USP. Foi bilíngue pela Nova Acrópole e traz o título de Acadêmicas.

Também em 2012, mas mais discretamente, Academica saiu em Portugal no volume Textos filosóficos, de Cícero, pela Calouste. Foi traduzida por J. A. Segurado e Campos, e saiu junto com Paradoxos dos estoicos, os fragmentos do Hortênsio e o de Finibus. Acompanha as traduções ainda uma bela introdução com cronologia, história da vida de Cícero e interpretações filosóficas de cada obra traduzida, além exposição atual do estado da arte -- utilíssima para quem quiser se inteirar do debate filosófico acerca de Cícero.

Obras clássicas costumam ter múltiplos estabelecimentos, cada edição com suas notinhas apontando as versões escolhidas dentre manuscritos, incluindo palpites próprios e dos predecessores sobre possíveis erros dos monges copistas. A praxe por aqui, mesmo sem colocar créditos, é usar os estabelecimentos que a Leob Classical Library escolhera. Vejo que a versão usada pelo tradutor brasileiro é a mesma que está no site Perseus, que é a de Otto Plasberg. No meu volume Loeb, editado por Rackham (1932), este fala da existência das edições de John Smith Reid (1884 -- disponível aqui) e de Otto Plasberg (1922 -- disponível aqui). A discrepância entre as duas que notei logo foi que na primeira, bem parecida com a de Rackham, está em I, i, 1: "... atque illum complexi ut mos amicorum est, satis eum longo intervallo ad suam villam reduximus"; e na segunda, assemelhada ao que está no Perseus: "... atque illum complexi, ut mos amicorum est (satis enim longo intervallo **), ad suam villam reduximus." Enfim, senti falta, na tradução brasileira, de alguma observação sobre a edição. Segurado e Campos, por sua vez, anuncia desde a introdução quais são as edições usadas em cada tradução, apontando a de Plasberg para Academica; além disso, tem o mérito de sopesar edições e, quando divergir de Plasberg, pôr nota e explicar a divergência. De resto, cabe apontar uma sigularidade sua: por ter posto os textos todos em ordem cronológica, pôr o Luculo antes do Livro I. É que Academica foi escrita duas vezes: só o último livro dos dois da primeira edição, chamado Lucullus, sobreviveu; ao passo que da segunda, dividida em quatro livros, sobreviveu apenas o primeiro. Daí o costume editorial ser colocar primeiro o livro I, lastimar a falta do II (ou a falta do Catulus, que teria na primeira edição o conteúdo dos livros I e II) e suprir o III e o IV com o Lucullus.

Ao cotejo de Ac, I, i, 3:

SEABRA: "E eu digo: 'Decerto essas obras, Varrão, eu já há muito tempo  expectante não ouso todavia suplicar; ouvi efetivamente da parte de nosso Libão, cuja afeição conheces (pois nada podemos ocultar desse tipo de coisa), que tu as não interrompes, mas delas tratas mais acuradamente e nem uma vez largas das mãos.

SEGURADO E CAMPOS: "'Há bastante tempo, Varrão' -- disse eu --, 'que aguardo esse trabalho, mas não ouso perguntar-te por ele; de resto ouvi nosso amigo Libão, cujos interesses bem conheces, dizer que tu (pois informações destas não é possível esconder) não só não interrompeste o trabalho, mas antes continua a aprofundá-lo com afinco, sem o largar nunca das mãos.

CÍCERO (Plasberg): "Et ego: 'Ista quidem, inquam, Varro iam diu expectans non audeo flagitare; audiui enim e Libone nostro, cuius nosti studium (nihil eius modi celare possumus), non te ea intermittere, sed accuratius tractare nec de manibus unquam deponere.

Agora, Ac. I, ii, 7:

SEABRA: "Ou caso a Zenão sigas, é importante fazer que alguém entenda que é que seja aquele verdadeiro e simples bem que não possa ser separado da honestidade (esse bem qual seja Epicuro nega absolutamente sequer supor sem os moventes prazeres dos sentidos); mas se seguirmos inteiramente a Antiga Academia que nós, como sabes, aprovamos, quão agudamente deverá ser ela explicada por nós, quão argutamente, e quão dissimuladamente até, contra os estoicos se deva dissertar."

SEGURADO E CAMPOS: "Mesmo a um seguidor de Zenão já se torna difícil fazer entender aos leigos em que consiste esse bem verdadeiro e simples, e inseparável do valor moral (bem esse que Epicuro nega poder ser definido, ou sequer conjecturado, sem recurso aos prazeres que afectam os sentidoos). Se arguirmos a teoria da Antiga Academia, que tu sabes ser a adoptada por mim, que perspicácia não é precisa para a explicitarmos bem, que argúcia e profundidade não se exige de nós para argumentarmos contra os Estoicos!"

CÍCERO: "Siue enim Zenonem sequare, magnum est efficere ut quis intellegat quid sit illud uerum et simplex bonum quod non possit ab honestate seiungi (quod bonum quale sit negat omnino Epicurus se sine uoluptatibus sensum mouentibus ne suspicari quidem); si uero Academiam ueterem persequemur, quam ut scis probamus, quam erit illa acute explicanda nobis, quam argute quam obscure etiam contra Stoicos disserendum."

Acho que estes cotejos dão o que pensar a quem defenda a literalidade acima de tudo.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

An Enquiry concerning Human Understanding -- Hume

A primeira versão lusófona parece ser apenas de 1973, pela Pensadores capa azul, no volume "Berkeley e Hume". Foi feita por Leonel Vallandro, tradutor literário do inglês. Em Portugal, a mais velha parece ser a de Artur Morão pela 70 em 1989. Depois, em 1999, vieram as de Anoar Aiex e José Oscar de Almeida Marques: o primeiro numa versão mais nova da Pensadores, onde Hume ganhou um volume só para si e apresentação de João Paulo Monteiro, o segundo pela UNESP, reimpressa junto com a Investigação sobre os princípios da moral em 2004. Saiu em 2002 pela Imprensa Nacional uma do próprio João Paulo Monteiro. Há ainda as de Alexandre Amaral Rodrigues, lançada pela Hedra em 2009, e existe uma da Escala em cujo catálogo não figuram tradutor ou ano. Todas as traduções têm o título "Investigação sobre o entendimento humano", exceto a de Aiex, que é "Investigação acerca do entendimento humano".

Eis, para cotejo, trechos das traduções a que tive acesso. É do parágrafo 11 da seção I.

VALLANDRO: No entanto, objeta-se que essa obscuridade da filosofia profunda e abstrata não só é penosa e fatigante, mas também uma fonte inevitável de incerteza e erro. Nisto reside, com efeito, a mais plausível e justa objeção contra uma parte considerável da metafísica: a de que ela não é propriamente uma ciência, mas, ou decorre dos infrutíferos esforços da vaidade humana que pretende penetrar à força em assuntos completamente inacessíveis ao nosso entendimento, ou dos ardis das superstições populares, que, incapazes de defender-se em luta leal, levantam essas barreiras para enredar o adversário e cobrir e proteger a sua própria fraqueza. Expulsos do campo aberto aberto, esses salteadores refugiam-se na floresta e procuram tomar de surpresa todas as vias de acesso desprotegidas do intelecto e apoderar-se delas com o socorro dos temores e preconceitos religiosos.

MORÃO: Impugna-se, porém, esta obscuridade na filosofia profunda e abstrata não só enquanto difícil e fatigante, mas enquanto fonte inevitável da incerteza e do erro. Aqui reside, de fato, a objeção mais justa e mais plausível contra uma considerável parte da metafísica, que não é verdadeiramente uma ciência, mas brota ou dos esforços infrutíferos da vaidade humana, que penetraria em matérias totalmente inacessíveis ao entendimento, ou da esperteza das superstições populares que, sendo incapazes de se defender a si mesmos de um modo justo, suscitam este emaranhado de silvas para ocultar e proteger suas fraquezas. Expulsos do campo aberto, estes ladrões fogem para a floresta e ficam à espera para irromperem em todos os caminhos não guardados da mente e a oprimirem com temores e preconceitos religiosos.

MARQUES: O que se objeta, porém, à obscuridade da filosofia profunda e abstrata não é simplesmente que seja penosa e fatigante, mas que seja fonte inevitável de erro e incerteza. Aqui, de fato, repousa a objeção mais justa e plausível a uma parte considerável dos estudos metafísicos: que eles não são propriamente uma ciência, mas provêm ou dos esforços frustrados da vaidade humana, que desejaria penetrar em assuntos completamente inacessíveis ao entendimento, ou da astúcia das superstições populares, que incapazes de se defender em campo aberto, cultivam essas sarças espinhosas impenetráveis para dar cobertura e proteção a suas fraquezas. Expulsos do terreno desimpedido, esses salteadores fogem para o interior da floresta e lá permanecem à espera de uma oportunidade para irromper sobre qualquer caminho desguarnecido da mente e subjugá-lo com temores e preconceitos religiosos.
[Note-se que, nesta versão, são "avenues" que se subjugam, não "the mind".]

AIEX: Mas, objeta-se, a obscuridade da filosofia profunda e abstrata não é apenas penosa e fatigante, como também é uma fonte inevitável de incerteza e de erro. Na verdade, esta é a objeção mais justa e mais plausível contra uma parte considerável da metafísica, que não constitui propriamente uma ciência, mas nasce tanto pelos esforços estéreis da vaidade humana que queria penetrar em recintos completamente inacessíveis ao entendimento humano, como pelos artifícios das superstições populares que, incapazes de se defenderem lealmente, constroem essas sarças emaranhadas para cobrir e proteger suas fraquezas. Perseguidos em campo aberto, estes salteadores correm para a floresta e põem-se de emboscada para surpreender toda avenida desguarnecida do espírito, a fim de dominá-lo com temores e preconceitos religiosos.

MONTEIRO: Mas aquilo que se objeta à obscuridade da filosofia profunda e abstrata não é simplesmente que seja penosa e fatigante, mas que seja uma fonte inevitável de erros e incertezas. Aqui, de fato, assenta a objeção mais justa e plausível a uma parte considerável da metafísica, que ela não é propriamente uma ciência, mas ou deriva dos esforços infrutíferos da vaidade humana, que gostaria de penetrar em assuntos completamente inacessíveis ao entendimento, ou da astúcia das superstições populares que, sendo incapazes de se defenderem em campo aberto, cultivam todos esses espinhos emaranhados para esconder e proteger suas fraquezas. Expulsos do campo aberto, esses salteadores fogem para a floresta e ficam à espera de uma oportunidade para invadir qualquer avenida desprotegida do espírito, para o subjugarem com temores e preconceitos religiosos.

HUME: But this obscurity, in the profound and abstract philosophy, is objected to, not only as painful and fatiguing, but as the inevitable source of uncertainty and error. Here, indeed, lies justest and most plausible objection against a considerable part of metaphysics, that they are not properly a science; but arise, either from the fruitless efforts of human vanity, which would penetrate into subjects utterly inaccessible to the understanding, or from the craft of popular superstitions, which, being unable to defend themselves on fair ground, raise these entangling brambles to cover and protect their weakness. Chased from the open coutry, these robbers fly into the forest, and lie in wait to break in upon every unguarded avenue from the mind, and overwhealm it with religious fears and prejudices.

Escolhi este trecho com a curiosidade de ver se algum tradutor colocaria "robbers" no feminino, já que são-no as "supperstitions".